"deus me dê
serenidade para aceitar
as coisas que não posso mudar,
coragem
para mudar as coisas que eu posso mudar,
e sabedoria para sempre
saber a diferença".
faz algum tempo que eu estava querendo ler
"matadouro 5" de kurt vonnegut, mas não encontrava em lugar nenhum (que não fosse via internet, claro). até que sábado passado, depois de uma tarde de cervejas no mercado da boa vista, guilherme encontrou na estante da livraria cultura um minuto depois de eu ter comentado que queria comprar e que nunca encontrava. e ainda foi a versão baratinha da l&pm pocket. como diria vonnegut no livro, "coisas da vida".
não sei se foi por que eu comecei a ler "matadouro 5" cheia de expectativa, tenho que confessar que não achei o livro essas coisas todas não. como a recomendação veio de um monte de amigos de gosto literário irreparável, não tinha como esperar outra coisa. porém, mais uma vez chego a conclusão de que o bom mesmo é ler livros e ver filmes sem expectativas. tenho certeza que estaria muito mais empolgada com a estória se ela tivesse chegado às minhas mãos do nada. mas, são apenas "coisas da vida" mais uma vez.
"matadouro 5" mistura um pouco de realidade e ficção numa mesma estória. enquanto o próprio autor relata a sua experiência durante a segunda guerra mundial, em especial durante o bombardeio de dresden, ele cria o personagem billy pilgrim que teria estado presente durante os mesmos eventos presenciados por ele. porém, pilgrim vive um vai-e-volta no tempo que acredita ser resultado da sua abdução por alienígenas do planeta tralfamador. em um momento, estamos no meio da guerra entre soldados americanos estropiados e sujos, em outro estamos vendo billy pilgrim levando sua vida como um optometrista bem-sucedido trinta anos mais tarde. às vezes, até na mesma página, somos jogados no zoológico, no qual o próprio pilgrim é exibido com espécime raro para vários tralfamadorianos curiosos.
o que eu gostei mais da estória foi, além dos personagens interessantíssimos bolados por vonnegut, a dúvida constante sobre qual o problema real de billy pilgrim, que o levava a confundir o que era verdade ou ilusão. seria loucura, depressão pós-guerra, seqüela da fratura no crânio? não dá para saber. a única certeza que a estória me passou foi que se a guerra não mata você diretamente através de um tiro ou de uma explosão, ela eventualmente mata de alguma outra forma. e talvez essa seja uma das mais importantes mensagens anti-guerra passadas pelo livro.
tenho que confessar que adorei o estilo de mini-capítulos deste livro do vonnegut. não sei se esta é uma característica recorrente nas suas outras obras, mas acho que deu muita fluidez a estória e ajudou a intensificar a idéia da inconstância vivida pelo personagem principal. além disso, não sai da minha cabeça o "ensinamento" dos tralfamadorianos de que, mesmo quando uma pessoa morre, ela continua viva e bem em outra época. por esse motivo, não haveria motivo para chorarmos por nossos entes queridos quando eles morrem. essa idéia também leva a seguinte conclusão: se podemos escolher um momento qualquer de nossa vida para viver, por que não escolher os melhores apenas, não é? nada de perder tempo remoendo as coisas ruins...